09 junho 2007

Reprodução da ignorância

É difícil calar face à reprodução da ignorância. Em artigo publicado na edição de hoje do Jornal do Commercio, o jornalista Juracy Andrade destila um amálgama violento, desinformado e preconceituoso sobre juventude, reprodução, violência e pobreza: Daí o que vemos hoje. Enquanto a maior parte das classes alta e média, apesar do veto papal, planeja a família e controla a natalidade, as classes pobres e desassistidas se enchem de filhos entregues ao deus-dará (nada a ver com o Deus dos crentes), cuja maioria só serve para pedir esmolas e praticar assaltos nas ruas, não sabe o que é lar, escola, lazer, não tem presente nem futuro. A promiscuidade em que vivem os adolescentes largados no mundo, a falta de informação, os conduz a uma vida sexual sem responsabilidade nem sanidade, cujo resultado são mais crianças jogadas na sarjeta. É a reprodução da miséria.

Uma coisa é ser favor da democratização do acesso à saúde reprodutiva, outra coisa é responsabilizar as mulheres pobres, ou pior, à juventude pobre, pela desigualdade social e violência do país. O artigo se torna mais perigoso ainda porque emana de uma personalidade da comunicação que deveria supostamente ser bem informada. Passemos então a algumas evidências científicas que encontrei em poucos segundos de pesquisa no site do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM).

Segundo Mario Monteiro (Pesquisador do IMS-UERJ) a faixa etária de maior fecundidade no Brasil concentra mulheres entre 20 e 24 anos, o que exclui automaticamente a idéia preconceituosa de que são adolescentes “promíscuos” que botam mais filho no mundo. Ainda segundo Maria Luiza Heilborn (pesquisadora do mesmo instituto carioca): “Diminuir o número de pobres impedindo-os de nascer aparece como a salvação das mazelas sociais e da violência urbana. Mais do que isso, é a fecundidade dos mais pobres que deve ser controlada, sobretudo das mais jovens, pois são elas que ‘fabricam em série’ os delinqüentes juvenis”.

É preciso ainda compreender que muitas e muitos adolescentes que têm filhos não o fazem por “irresponsabilidade”, pelo contrário, procuram assumir um status de adulto, no projeto de construir uma família sonhando escapar da miséria...

É lamentável que jornalistas continuem a propagar elementos de uma burrice aristocrática e preconceituosa, num país onde a pesquisa sobre sexualidade e gravidez na adolescência é considerada de excelência e citada mundialmente. Sugiro ao Sr. Juracy Andrade, dentre inúmeras referências científicas que desnaturalizam a idéia de que “os pobres se reproduzem demais e reproduzem assim sua miséria”, a leitura completa de Juventude, sexualidade e reprodução (v.22 N.7 jul.2006) publicado nos Cadernos de Saúde Pública da prestigiada Fundação Oswaldo Cruz.

Esperando ainda que os meios de comunicação de massa contribuam para a defesa dos menos favorecidos, exigindo melhores de condições de vida, creches, escolas e trabalho para que todos possam ter o direito de escolher, sonhar e construir sua família, da melhor forma que bem entender, com um ou cinco filhos...

3 comentários:

Felipe Pimentel Lopes de Melo disse...

Muito bom Renata, muuuito bom. Manda um email pra esse imbecil do JC

Renata disse...

Bonjour Monsieur Camarão!!!! Pois é menino, eu até mandei... é muito chato ver esse tipo de produção no jornalismo... burra burra burra...

Cláudia Rodrigues disse...

Que dor!