17 junho 2007

Sobre o relaxa e goza

"Em uma década e meia de entrevistas com essa gente, como repórter da zoologia fantástica politiqueira, lembro da cena mais repetitiva. Sempre que os gravadores são desligados vem uma sacanagem radicalmente machista ou alguma frase sobre sexo. Relaxa e goza é fábula de Esopo diante do que ouvimos. Os repórteres morremos de rir sem desabrimentos nessa hora. Não publicamos nada.
A diferença é que alguns políticos, muitas vezes, não têm paciência para esperar esse instante "relax", o stop dos gravadores, caso da ministra-sexóloga, que falou exatamente o que estava acostumada a aconselhar no "TV Mulher" (Globo), quando era comentarista especializada, aliás era linda e incrível ao aconselhar o sexo anal para oprimidas donas-de-casa. Sempre com muito cuidado, é claro, além da pedagogia quase paulofreiriana.
Além muito além das várias Martas, a sexóloga e a ministra, o público e o privado, essa dupla caipira que faz confusão entre primeira e segunda voz nos inconscientes dos políticos e de nós todos, sempre apronta, não tem jeito.
Noves fora a chatice do já mofado politicamente correto, as frases dos machos políticos são impublicáveis, as frases das fêmeas soam normalmente como destempero, TPM, histerismo. É tanto que as fêmeas públicas não se arriscam à sessãozinha pornográfica que os machos têm com os repórteres depois das entrevistas.
Muitos repórteres ou colunistas que agora desforram do "relaxa e goza", muitos aliás que não fazem nem uma coisa nem a outra faz tempo, já ouviram calados ou nunca foram capazes de escrever uma frase de deputados porcos chauvinistas, mesmo que essas tivessem ligações diretas com a realidade pública. No mínimo, eram boas imagens, metáforas inconscientes, só para gastar aqui meus 15 minutos de psicanálise, sou uma espécie de novo-rico freudiano, se é que vocês me entendem.
E quando a sacanagem não é sexual, geralmente descamba para o preconceito ou o palpite infeliz de sempre. Tudo isso começou com o coronel Chico Heráclio (1920-1974), líder político de Limoeiro, Pernambuco, que um dia, no couro curtido do seu machismo, disse assim: "Mulher é feito espingarda, só presta se for guardada". A fêmea continua sendo uma arma quente!"
Xico Sa Folha de São Paulo 17/06/07

09 junho 2007

Reprodução da ignorância

É difícil calar face à reprodução da ignorância. Em artigo publicado na edição de hoje do Jornal do Commercio, o jornalista Juracy Andrade destila um amálgama violento, desinformado e preconceituoso sobre juventude, reprodução, violência e pobreza: Daí o que vemos hoje. Enquanto a maior parte das classes alta e média, apesar do veto papal, planeja a família e controla a natalidade, as classes pobres e desassistidas se enchem de filhos entregues ao deus-dará (nada a ver com o Deus dos crentes), cuja maioria só serve para pedir esmolas e praticar assaltos nas ruas, não sabe o que é lar, escola, lazer, não tem presente nem futuro. A promiscuidade em que vivem os adolescentes largados no mundo, a falta de informação, os conduz a uma vida sexual sem responsabilidade nem sanidade, cujo resultado são mais crianças jogadas na sarjeta. É a reprodução da miséria.

Uma coisa é ser favor da democratização do acesso à saúde reprodutiva, outra coisa é responsabilizar as mulheres pobres, ou pior, à juventude pobre, pela desigualdade social e violência do país. O artigo se torna mais perigoso ainda porque emana de uma personalidade da comunicação que deveria supostamente ser bem informada. Passemos então a algumas evidências científicas que encontrei em poucos segundos de pesquisa no site do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM).

Segundo Mario Monteiro (Pesquisador do IMS-UERJ) a faixa etária de maior fecundidade no Brasil concentra mulheres entre 20 e 24 anos, o que exclui automaticamente a idéia preconceituosa de que são adolescentes “promíscuos” que botam mais filho no mundo. Ainda segundo Maria Luiza Heilborn (pesquisadora do mesmo instituto carioca): “Diminuir o número de pobres impedindo-os de nascer aparece como a salvação das mazelas sociais e da violência urbana. Mais do que isso, é a fecundidade dos mais pobres que deve ser controlada, sobretudo das mais jovens, pois são elas que ‘fabricam em série’ os delinqüentes juvenis”.

É preciso ainda compreender que muitas e muitos adolescentes que têm filhos não o fazem por “irresponsabilidade”, pelo contrário, procuram assumir um status de adulto, no projeto de construir uma família sonhando escapar da miséria...

É lamentável que jornalistas continuem a propagar elementos de uma burrice aristocrática e preconceituosa, num país onde a pesquisa sobre sexualidade e gravidez na adolescência é considerada de excelência e citada mundialmente. Sugiro ao Sr. Juracy Andrade, dentre inúmeras referências científicas que desnaturalizam a idéia de que “os pobres se reproduzem demais e reproduzem assim sua miséria”, a leitura completa de Juventude, sexualidade e reprodução (v.22 N.7 jul.2006) publicado nos Cadernos de Saúde Pública da prestigiada Fundação Oswaldo Cruz.

Esperando ainda que os meios de comunicação de massa contribuam para a defesa dos menos favorecidos, exigindo melhores de condições de vida, creches, escolas e trabalho para que todos possam ter o direito de escolher, sonhar e construir sua família, da melhor forma que bem entender, com um ou cinco filhos...

07 junho 2007

Tormentas

Volto aqui mais uma vez, vivenciando um forte conflito cognitivo a cada vez que me sento para escrever essas linhas. É que agora o meu conflito de identidade “virtual” disputa com meu conflito de identidade “real”, o meu espaço psíquico “ridículo, limitado que só usa 10% da sua cabeça animal...”
Daria um bom cordel pós-moderno: a peleja do eu com ele mesmo por um pedaço de lugar nenhum... taí o mote...
Enquanto isso a gente acorda, toma café, lê o jornal, checa o email, vê se chegou correspondência, abre a porta pro vizinho e espera chegar seis da tarde que é a hora da salvação! Amém!

02 junho 2007

"Irrealidades da vida cotidiana"

Há horas em que a gente olha ao redor para ver se entende o mundo. E aí a gente percebe que ainda não leu tudo o que precisa dos grandes clássicos do romance mundial, mas que um montão de gente também não leu e tem um outro montão que leu, mas que não entenderam nada (boa desculpa para a gente se tranqüilizar até achar um “tempinho” para ir à biblioteca!).
Há horas em que você já não agüenta mais ficar olhando pra tela do computador e ao invés de levantar sua bunda e procurar algo de atrativo e interessante, você resolve xeretar o orkut do primo do vizinho do cunhado do seu amigo do maternal e aí tudo começa a ter menos sentido ainda... que danado eu estou fazendo aqui?
Chega a desesperar de tantas obviedades e você ali ao invés de quebrar este maldito engajamento, continua insistindo... Eu já tive várias crises de identidade virtual e em muitos momentos eu quis apagar tudo e dizer adeus a este mundo de pixels e átomos. Depois eu entendi que não é preciso ser tão radical assim, porque a gente pode fazer coisas boas nestes esquemas... eu mesma já critiquei um monte de gente que quis sair fora do sistema e vira e mexe eu estou me perguntando qual o sentido disso tudo.
Como se já não bastasse ter que se perguntar qual o sentido da vida agora a gente se pergunta qual o sentido da nossa vida virtual!! Como já diria o velho Freud (colegas de profissão me corrijam por gentileza), para o desejo (a grosso modo) não existe dimensão de real e irreal... é querer até se acabar...
Vidas fora e dentro do computador seriam nada mais nada menos que a mesma face do desejo? Do desejo de viver/morrer? Sei lá...
Mudando de assunto, esta semana a gente viu o último capítulo da terceira temporada de Lost... na verdade, não vou mudar muito de assunto não, um pouquinho só... Lost é assim: todo episódio eu vejo que o enredo tem furos crassos e na próxima semana eu estou na frente da telinha para dizer que Lost tem erros crassos...
Compulsão à repetição, diriam os colegas de plantão? Não deixa de ser... é preciso repetir até que se elabore a famosa repetição com diferença, pois bem...
Fiquei sempre indignada porque jornais e sites ficam espalhando por ai que Jack Shepard (ou qualquer coisa do gênero) é o herói da história... Intrigante... o líder-herói tem que ser um médico né?! Truculento, egoísta, narcísico, ditador e sarcástico...
Não é à toa também que as séries que fazem mais sucesso aqui na França são aquelas sobre emergências hospitalares e medicina legal... os novos heróis não salvam as mocinhas dos bandidos, não têm uma identidade secreta, não roubam os ricos para dar aos pobres, não têm poderes supranormais... os novos heróis têm diplomas com especialidades complexas, de preferência um diploma de médico...
Quase não existem mais as séries ou os programas com heróis “virtuais”... agora é tudo ali, na carne, no osso, na bala, na prova do crime, no DNA! Como diria Umberto Eco, um infinito desejo de fazer da irrealidade a coisa mais real que pode existir...